Dica de leitura: Brasil em Tempo de Cinema

Brasil em tempo de cinema - Ensaio sobre o Cinema Brasileiro de 1958 a 1966 - Jean-Claude Bernardet

Terminei hoje a leitura de Brasil em Tempo de Cinema e, com tudo fresquinho na cabeça, não resisti e resolvi vir recomendar.

Neste livro, Jean-Claude Bernardet analisa a produção cinematográfica do Brasil durante o período de 1958 a 1966, fazendo um paralelo do que representavam os personagens e os contextos desses filmes em uma sociedade em pleno Golpe Militar de 1964.

O livro é escrito com muita subjetividade, Bernardet colocou muito de seus anseios nele e, para quem se identifica como eu, dá vontade de sentar em uma mesa de bar com o autor e iniciar uma interminável conversa sobre a situação do cinema brasileiro da época e no que isso repercute na atualidade. Mas como eu não acredito nisso de “tudo começa em uma mesa de bar”, o material deve ser levado muito mais a sério e deve ser expandido para as mesas de estudo, universidades, debates, culminando no set de filmagem. Não há como não se questionar sobre o seu papel como cineasta e com certeza esta leitura vai me influenciar em meus próximos trabalhos.

Segundo o posfácio de Carlos Augusto Calil, o livro é a tese universitária de Bernardet que afirma: o cinema brasileiro é uma manifestação feita da classe média para a classe média, e não para o povo como pregavam os cinemanovistas. Ou seja, a culpa do cinema brasileiro não ser popular entre o público não se devia apenas aos problemas de distribuição. A linguagem não estava estabelecendo comunicação com seu principal alvo.

A ousadia dessa afirmação origina discussões até hoje e nos faz refletir sobre o Cinema da Retomada, sobre o quanto nos aproximamos e permanecemos distantes de uma linguagem que dialoga com público e crítica. Podemos analisar uma safra mais atual, como Cidade de Deus e Tropa de Elite e notar o quanto contribuíram para a elaboração de personagens dúbios e bem construídos, para um ritmo e linguagem que fez contato com o grande público. Mas uma analogia mais profunda é assunto para outro post.

O livro levanta também uma nova perspectiva sobre o cinema que retrata o sujeito da classe média, o homem que oscila, procurando a que se prender, em que acreditar e que escapa a duras penas da desilusão e do marasmo social. O artista (também pertencente a essa classe), fixou-se tanto em retratar o povo que se esqueceu de si e de seus maiores conflitos. Nos capítulos finais, somos incentivados a seguir esse tema de autoconhecimento através de exemplos de filmes precursores nessa abordagem: São Paulo S.A. (Luiz Sergio Person, 1965) e O Desafio (Paulo César Saraceni, 1965). Dessa forma, abre-se espaço para a liberdade de expressão, sem o estigma de fazer filmes apenas para conscientização popular. Quanto mais sincera for nossa busca por nós mesmos, mais verdadeiro nosso retrato na tela.

Brasil em tempo de cinema é uma bibliografia como poucas sobre a tradição cinematográfica do país. Leia disposto a enxergar o cinema brasileiro e a você mesmo de outra forma.

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