Laranja Mecânica

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Inglaterra (Hawk, Polaris, Warner Bros.) 137 min. P&B/Cor
Idioma: Inglês
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, baseado no livro de Anthony Burgess
Fotografia: John Alcott
Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, John  Clive, Adrienne Corri, Carls Duering, Paul Farell, Clive Francis, Michael Gover, Miriam Karlin, James Marcus, Aubrey Morris, Godfrey Quigley, Sheila Raynor.

Após quase um século sem  posts, retorno com um sobre este clássico controverso e polêmico que ainda não tinha visto até esta semana.

Laranja Mecânica é digamos, uma ficção científica, por se passar em um futuro indeterminado muito próximo a nossa realidade atual.

O enredo conta a história de um grupo de rapazes que adotam como prazeres e passa-tempo a violência, estupro, invasão de residências, “leite” e no caso de Alex, o protagonista, Beethoven.

Em meio a esse ambiente bem “horrorshow”, Alex é capturado pela polícia e, após dois anos na prisão, é submetido a uma técnica experimental de cura de delinquentes que não passa de uma lavagem cerebral que elimina qualquer traço de vontade própria e autodefesa. O método Ludovico, consiste em injetar drogas que causam dor física no paciente e colocá-lo para assistir vídeos de violência extrema (como a praticada pelos droogs), para que assim ele relacione o ato violento ao desconforto e reprima qualquer instinto opressivo por condicionamento.

Não é nada complexo fazer um paralelo com nossa presente sociedade, na verdade esse é o verdadeiro propósito do filme, não divulgar a violência como a censura acaba pregando. Isso é o que determina se o espectador fará uma interpretação coerente com o longa ou se sairá por aí praticando a chamada “ultra-violência” do filme.

Alex seria como um jovem perturbado de nossos tempos, que finge estar com alguma dor ou doença para não ir à

Alex e os Droogs na Leitaria, que equivale aos bares e outros distribuidores de drogas de hoje em dia.

Alex e os Droogs na Leitaria, que equivale aos bares e outros distribuidores de drogas de hoje em dia.

escola e em que os pais acreditam para não se incomodarem em assumir uma postura paterna. O leite são as drogas que se tornam o combustível para a irresponsabilidade e violência, e os Droogs são sua fiel gangue de capangas subordinados que só buscam um líder para seguir e dar suporte às suas necessidades.

Existe também a figura do assistente social, que apenas se preocupa que o número de jovens recuperados por ele seja maior do que o de delinquentes que acabam na cadeia, estes últimos que apenas enegrecem sua ficha profissional.

Outras figuras desprezíveis que representam nossas autoridades também estão presentes, como o Ministro, porta-voz do governo, que no primeiro momento apóia e divulga o método Ludovico apenas para adquirir votos e dar uma trégua à superlotação das penitenciárias, mostrando que o ser humano por trás do eleitor, na verdade não é sua prioridade.

A visão dos representantes religiosos também é turva, pois, mesmo percebendo a desumanidade cometida, não interferem com maior atitude quando descobrem que o seu trabalho de tentar converter os desvirtuados está quase acabado.

O personagem Alex, em minha concepção, é desprezível em todo o longa-metragem. Mesmo como vítima, em nenhum momento sente-se pena dele, muito pelo contrário.

Em cenas como a invasão da mansão futurística de um escritor, onde os droogs o espancam e estupram sua mulher, o espectador choca-se e sente-se desconfortável, mas quando Alex é quem assiste a tais cenas em acessos ininterruptos de dor, quem se deleita e demonstra seu sadismo em relação a punição dos maus é o verdadeiro espectador.

Em certa altura da história, Alex descobre que seus ex-companheiros de gangue se tornaram policiais retratando o que de fato acontece, os antigos marginais acabam transformando-se em nossos oficiais de polícia apenas para cometer mais atrocidades em um meio mais influente.

Quando o método Ludovico é desmascarado para a sociedade após uma tentativa de suicídio de Alex, o governo, agora enfraquecido, tenta reverter o processo de condicionamento do ex-delinquente, para recuperar os votos. E o resultado é a volta de um velho vândalo ao seu hábitat natural.

Em termos técnicos, o filme é uma obra de arte. As composições coloridas de Kubrick, instigam estranhamente a confusão, apesar da simetria das mesmas. Por possuir poucos planos próximos e closes, as cenas conduzem ao nervosismo por não obedecerem a tendência do espectador de esperar a aproximação.

E em suma, o ambiente do filme é completamente desobediente, ao tratar de jovens que não se enquadram na sociedade, autoridades que não condizem com seus títulos e ao provocar o espectador, mostrando a violência e o sadismo que ele mesmo cultua em seu grupo social e dentro de si mesmo.

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