Bom, como faz séculos que eu não posto, to sem tempo e achei um trabalho meu do semestre passado de Análise do Audiovisual, está aí.
O filme “Pequeno Grande Homem” (Arthur Penn, 1970) é uma contradição aos diversos códigos estabelecidos pelo gênero Western.
O dogma presente e mais contrariado pelo citado longa-metragem é a relação entre índios e colonizadores. Nos mais tradicionais filmes desta subdivisão (tais como “No Tempo das Diligências”), o índio é abordado como uma força selvagem da natureza, que deve ser contida e exterminada para a paz da nação, enquanto o colonizador assume o papel de mensageiro da lei e ordem nos territórios indígenas.
Neste filme, a filosofia de vida da tribo cheyenne que sempre acolhe o desencaminhado Jack Crabb, é a mensagem de paz e respeito pela vida necessários ao homem branco dado à carnificina.
O fato de acolherem o jovem branco que perdeu sua família, demonstra a afetuosidade do povo indígena perante um desprotegido. A confiança depositada em uma figura de outra etnia que se torna até mesmo um herói dentre o povo, mostra a aceitação com que o índio recepciona seu semelhante, tão divergente quando se trata de princípios.
Através do ancião da tribo se pode perceber as posições do índio perante os ataques dos colonos. A primeira atitude do povo é de recepção, de tratar as invasões e guerras como mal-entendidos que poderiam ser desfeitos através de uma interação amigável. Porém, à medida que as investidas tornam-se banais, o sentimento de desentendimento dos atos do homem branco propaga-se pela comunidade, gerando apenas a necessidade de se defender, resultando, por fim, na perca da fé dos nativos na consciência e integridade dos colonizadores.
O colonizador é retratado com sua verdadeira face, principalmente pelo personagem General Armstrong Custer que é apresentado como um homem cruel e orgulhoso, porém sem perder o tom cômico que acompanha todo o longa-metragem.
Outro contraponto diante das convenções do Velho Oeste é a luta simbólica entre o bem e o mal, antes representada respectivamente pelo cawboy solitário e pela colonização; e do outro lado pelos bandidos e índios, vistos como a escória social.
Os papéis neste caso são invertidos, sendo os indígenas para quem o espectador torce sem muita esperança, e os colonizadores o motivo do desejo de punição.
A figura do herói também é distorcida no filme. Diferente de “Os Brutos Também Amam”, onde o “mocinho” é o vaqueiro íntegro, digno e corajoso, que modifica a vida de uma pequena cidade, através de seus transparentes atos; e também contrário à índole duvidosa dos protagonistas de “Meu Ódio Será Tua Herança”, o personagem principal em“Pequeno Grande Homem”, Jack Crabb, é incapaz de matar mesmo o assassino de sua família. Sua covardia é um traço que marca toda sua vida. É o que o faz se unir ora aos índios, ora aos colonizadores, acompanhado de sua grande incerteza da vida. Essa concepção de herói não fica entre nenhum dos extremos; o personagem está longe de ser um assassino, mas também se distancia da coragem à moda John Wayne, herdando deste apenas a integridade.
A imagem da mulher também não é retratada com a dignidade imposta pelos outros nomes do gênero. Louise Pendrake encaixaria-se no perfil de dama redentora, no entanto, descobre-se que sempre fora uma promíscua de consciência duvidosa e que o tempo não mudou essa sua tendência. A personalidade feminina que chama atenção por sua força e garra é decididamente Raio de Sol, a jovem índia que suporta sem ruído as dores de um parto e de sua morte em busca da proteção da prole.
Nota-se pela época em que foi feito (1970) que o filme tem uma nova visão e conhecimento dos fatos históricos que os antigos não tinham. O tempo esclareceu as situações o suficiente para que se fizesse algo que retratasse o vilão e o “mocinho” corretamente. Os próprios ataques às aldeias apresentados no longa, fazem referência à Guerra do Vietnã que ocorria no momento presente. A identificação com os índios é o que torna o filme mais humano. Tal qual “Dança com Lobos”, o laço afetivo do espectador é feito com quem, de fato, mereceria.