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O Palhaço

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Palhaço, filme de Selton Mello, conta a história de Benjamim (Selton Mello) e seu pai Valdemar (Paulo José), donos do Circo Esperança que chega a uma cidadezinha do interior trazendo alegria aos habitantes. O problema é que Benjamim já não vê mais graça no mundo circense e resolve ir atrás de seus sonhos e mudar de vida.

Podemos dizer que O Palhaço é um filme que trabalha com um entendimento em camadas, preocupando-se com público e crítica. O início é constituído principalmente de um humor ingênuo e algumas vezes negro, ironizando a situação precária nos bastidores do circo. Achei a parte mais frágil do roteiro, as piadas parecem servir como uma forma de chamar a atenção do grande público, porém, isso prejudicou um pouco a apresentação dos personagens. Eu, por exemplo, não entendi de cara a razão do marasmo de Benjamim. Parece que a atenção de Selton Mello estava mais focada em prender os espectadores do que na premissa, mas levando em conta a reação na sala de cinema, acho que deu certo.

O filme faz um interessante paralelo entre a visão do público e dos trabalhadores circenses. Vemos o circo retratado de uma maneira mágica e quase glamourosa, que traz a alegria e a fuga da rotina aos espectadores. No entanto, o olhar tedioso de Benjamim nos guia pelos bastidores, mostrando que, para eles, aquilo não é mais novidade. As interpretações, em alguns momentos, lembram o eterno palhaço Chaplin e a influência de Fellini com suas homenagens ao circo é  evidente.

A partir do meio do filme , quando o circo vai para outra cidade, o filme se intensifica e os personagens ganham outras dimensões. Benjamim que não tem nenhum documento a não ser sua certidão de nascimento, está obcecado pela ideia de possuir um ventilador, um objeto tão simples que, na visão dele, melhoraria muito sua vida. O sentimento de deslocamento é transmitido maravilhosamente em um diálogo de Selton Mello: “Eu faço o povo rir, mas quem vai me fazer rir?”. Temos uma função na sociedade, um público a agradar, mas a nossa individualidade não é valorizada.

O filme faz pensar em como idealizamos nossa vida, pensando que a felicidade vai estar em um ventilador, em um emprego melhor, em uma vida na cidade, mas que na verdade isso só serve para modificar nossa personalidade e causar um sentimento de deslocamento maior que nos faz querer voltar para a vida anterior, com tudo que conhecemos e sabemos fazer. Acho que a sensação de leveza que Selton Mello quis imprimir não se aplicou a mim que sai revoltada com a conformidade do desfecho, e ao mesmo tempo feliz que o carismático personagem tenha encontrado seu lugar. Mas o fato é que Benjamim não seria o mesmo se não tivesse buscado seus sonhos e ambições, então é melhor continuar indo atrás, mesmo que se prove que éramos mais felizes antes.

Dica de leitura: Brasil em Tempo de Cinema

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Brasil em tempo de cinema - Ensaio sobre o Cinema Brasileiro de 1958 a 1966 - Jean-Claude Bernardet

Terminei hoje a leitura de Brasil em Tempo de Cinema e, com tudo fresquinho na cabeça, não resisti e resolvi vir recomendar.

Neste livro, Jean-Claude Bernardet analisa a produção cinematográfica do Brasil durante o período de 1958 a 1966, fazendo um paralelo do que representavam os personagens e os contextos desses filmes em uma sociedade em pleno Golpe Militar de 1964.

O livro é escrito com muita subjetividade, Bernardet colocou muito de seus anseios nele e, para quem se identifica como eu, dá vontade de sentar em uma mesa de bar com o autor e iniciar uma interminável conversa sobre a situação do cinema brasileiro da época e no que isso repercute na atualidade. Mas como eu não acredito nisso de “tudo começa em uma mesa de bar”, o material deve ser levado muito mais a sério e deve ser expandido para as mesas de estudo, universidades, debates, culminando no set de filmagem. Não há como não se questionar sobre o seu papel como cineasta e com certeza esta leitura vai me influenciar em meus próximos trabalhos.

Segundo o posfácio de Carlos Augusto Calil, o livro é a tese universitária de Bernardet que afirma: o cinema brasileiro é uma manifestação feita da classe média para a classe média, e não para o povo como pregavam os cinemanovistas. Ou seja, a culpa do cinema brasileiro não ser popular entre o público não se devia apenas aos problemas de distribuição. A linguagem não estava estabelecendo comunicação com seu principal alvo.

A ousadia dessa afirmação origina discussões até hoje e nos faz refletir sobre o Cinema da Retomada, sobre o quanto nos aproximamos e permanecemos distantes de uma linguagem que dialoga com público e crítica. Podemos analisar uma safra mais atual, como Cidade de Deus e Tropa de Elite e notar o quanto contribuíram para a elaboração de personagens dúbios e bem construídos, para um ritmo e linguagem que fez contato com o grande público. Mas uma analogia mais profunda é assunto para outro post.

O livro levanta também uma nova perspectiva sobre o cinema que retrata o sujeito da classe média, o homem que oscila, procurando a que se prender, em que acreditar e que escapa a duras penas da desilusão e do marasmo social. O artista (também pertencente a essa classe), fixou-se tanto em retratar o povo que se esqueceu de si e de seus maiores conflitos. Nos capítulos finais, somos incentivados a seguir esse tema de autoconhecimento através de exemplos de filmes precursores nessa abordagem: São Paulo S.A. (Luiz Sergio Person, 1965) e O Desafio (Paulo César Saraceni, 1965). Dessa forma, abre-se espaço para a liberdade de expressão, sem o estigma de fazer filmes apenas para conscientização popular. Quanto mais sincera for nossa busca por nós mesmos, mais verdadeiro nosso retrato na tela.

Brasil em tempo de cinema é uma bibliografia como poucas sobre a tradição cinematográfica do país. Leia disposto a enxergar o cinema brasileiro e a você mesmo de outra forma.

Mais sobre o Kikito

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

E então, gente depois de anos, volto com um post muito bacana sobre a minha participação como júri estudantil representante da ULBRA no 38º Festival de Gramado.

Sobre os prêmios principais do festival, já era esperado que o filme Bróder de Jeferson De faturasse melhor filme e melhor direção. O longa realmente vai além do tão rotulado “filme favela” e, embora tenha me deparado com opiniões contrárias, é o que mais se comunica com o público, além de ser um filme com o perfil do festival.

Esse foi o único prêmio previsível, pois depois as surpresas tomaram conta. Melhor ator para Caio Blat em Bróder, prêmio especial do júri para O Último Romance de Balzac, melhor atriz para Simone Spoladore em Não se pode viver sem amor, melhor roteiro para Dani Patarra e Jorge Durán, por Não se pode viver sem amor e melhor fotografia para Luis Abramo, por Não se pode viver sem amor.

A seleção poderia ter uma variedade maior de filmes com sensibilidade e técnica. Houve uma enxurrada de documentários, alguns muito bons, outros nem tanto e as ficções estavam meio sem vida, o que explica a vitória de Bróder que, mesmo possuindo alguns probleminhas de roteiro, é um filme em que se sente a emoção depositada tanto durante a projeção quanto nos depoimentos emocionados do diretor Jeferson De. Incentivos como esse faltaram à ficção brasileira.

Embora a mostra competitiva de longa brasileiro tenha se encaminhado dessa maneira, a mostra de curtas e de longas-metragem estrangeiros estava difícil de julgar devido à grande quantidade de filmes de qualidade.

O curta vencedor de melhor filme, Carreto de Cláudio Marques e Marilia Hughes foi um grande merecedor, embora a animação vencedora do prêmio especial do júri Os Anjos do Meio da Praça tenha me tragado para dentro com uma força dificilmente vista neste festival.

O longa estrangeiro vencedor de melhor filme, Mi Vida Con Carlos, mostrou uma grande sensibilidade relatando o resgate das memórias do falecido pai de Germán Berger. Entretanto, continuo achando que o prêmio de melhor roteiro para La Vieja de Atrás de Pablo Meza não fez jus à beleza deste filme.

A Mostra Panorâmica, aberta ao público e exibida na parte da tarde durante o festival, foi julgada exclusivamente pelos integrantes do júri-estudantil. Filmes inteligentes e de muito conteúdo (alguns até melhores que os da mostra competitiva) foram vistos por nós. Dou grande destaque para Os Inquilinos de Sérgio Bianchi, filme forte com um enredo inteligente e personagens bem construídos, que trata sobre a vida de um pai de família tentando protegê-la dos males presentes no subúrbio.

Nossa escolha de Melhor Filme da Mostra Panorâmica foi Terra Deu, Terra Come de Rodrigo Siqueira. Um documentário muito bem construído sobre a vida de antigos cidadãos do sertão mineiro, misturando suas culturas locais, sonhos e fantasias à realidade. O filme apresenta a forma com que a celebração fúnebre de João Batista – falecido com 120 anos – resgata as memórias culturais de um povo com raízes africanas.

Minha experiência como integrante do júri-estudantil foi ótima e agradeço muito pela oportunidade de aprender e  conhecer as novas tendências do cinema brasileiro. Mas deixo um recado para a nova geração de cineastas: não se deixem impressionar com algo que, na verdade, não os impressiona. Festivais são concursos de filmes e não de tentativas de parecer inteligente. A melhor forma de ser notado é ser sincero consigo e buscar a ligação que está na essência dessa profissão: a paixão legítima  pela sétima arte.

Uma foto para registrar o momento:



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