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Terra em Transe: Esperança, luta e desilusão

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Paulo Martins entra em conflito com seu padrinho paternalista, Porfírio Diaz.

Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967) narra a vivência política do jornalista e poeta Paulo Martins (Jardel Filho) que oscila entre seu antigo padrinho Porfírio Diaz (Paulo Autran), representante paternalista de direita, e Dom Felipe Vieira (José Lewgoy), líder populista eleito governador da província de Alecrim.

Paulo decide abandonar Diaz, pois percebe sua falta de interesse em modificar a situação corrente e suas ações para sufocar a liberdade artística quando o assunto é política. Conhece então, Sara (Glauce Rocha), ativista que partilha de seus mesmos ideais, e resolvem escolher um líder político progressista que vá promover uma revolução social.

Após a eleição, percebemos que Vieira é fraco e incapaz de incentivar mudanças, pois descumpre as promessas que faz e abafa violentamente uma revolta de camponeses. A cena em que um mal articulado camponês se aproxima de Vieira para pedir soluções e é interrompido por ele, que apenas concorda e avisa para anotarem a reclamação do homem, traduz bem o descaso dos governantes para com o povo submisso.

Depois da traição de Vieira, Paulo é convencido por Sara e seu grupo de “radicais” a denegrir a imagem do antigo líder, Diaz, pois apenas no governo de Vieira terão chance de levar a revolução adiante. Porém, Paulo já não sabe mais que rumo tomar, sua desilusão o desprende de tudo em que acredita e ele volta à boemia que funciona como uma venda nos olhos dos intelectuais.

Quando Paulo resolve acordar de seu torpor e reagir fisicamente, é morto e silenciado pelas forças policiais.

O filme possui a linguagem do realismo fantástico que possibilita diversas alegorias sobre a situação política do Brasil após o Golpe Militar de 1964. Não foi absorvido pelo público, porém, teve repercussão no exterior, recebendo prêmios no Festival de Cannes, Havana e Locarno. A alegoria sempre se mostrou na filmografia do diretor, mas esse filme em especial, não poderia ter sido feito de uma forma mais direta devido à censura militar. Contudo, não se pode negar que sempre foi uma obra apreciada por intelectuais do cinema, mostrando que, como afirma Jean-Claude Bernardet, é uma obra não direcionada ao povo, e sim à classe média, característica enraizada e muitas vezes negada pelo Cinema Novo.

A oscilação entre diferentes pólos já estava presente na obra de Glauber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol e Barravento. Porém, nos outros filmes, é mostrada uma esperança de revolução ausente em Terra em Transe.

Paulo é a representação do estado de espírito de Glauber Rocha e da intelectualidade brasileira, que não tinha a quem recorrer ou se filiar. Uma geração sentia-se de mãos atadas. E quando recorria ao povo, tentando incentivá-lo à ação, percebia o quanto era desacreditado da própria força, a ponto de uma pequena repressão silenciá-lo por décadas.

Camponês detido pelo governo.

A cena em que estimulam um sindicalista chamado Jerônimo a falar mostra o quanto o povo é despreparado para gerar uma revolta organizada. E quando um verdadeiro camponês, atordoado com a falta de voz de quem deveria representá-lo pede a palavra é acusado de extremismo e linchado pelos capangas do governo, fazendo alusão às torturas ocorridas no período.

A incapacidade de se pronunciar e de agir.

Terra em Transe é um filme representativo, um desabafo desesperado que ecoa até hoje na incapacidade da sociedade de encontrar uma alternativa para os problemas sociais.
Mesmo não chegando ao povo, seu público-alvo, a obra promoveu reflexões entre a classe média que se questionou sobre a situação política e o papel do intelectual, buscando, através da liberdade de expressão, uma maneira de fazer a mensagem de ação ser entendida.

Dica de leitura: Brasil em Tempo de Cinema

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Brasil em tempo de cinema - Ensaio sobre o Cinema Brasileiro de 1958 a 1966 - Jean-Claude Bernardet

Terminei hoje a leitura de Brasil em Tempo de Cinema e, com tudo fresquinho na cabeça, não resisti e resolvi vir recomendar.

Neste livro, Jean-Claude Bernardet analisa a produção cinematográfica do Brasil durante o período de 1958 a 1966, fazendo um paralelo do que representavam os personagens e os contextos desses filmes em uma sociedade em pleno Golpe Militar de 1964.

O livro é escrito com muita subjetividade, Bernardet colocou muito de seus anseios nele e, para quem se identifica como eu, dá vontade de sentar em uma mesa de bar com o autor e iniciar uma interminável conversa sobre a situação do cinema brasileiro da época e no que isso repercute na atualidade. Mas como eu não acredito nisso de “tudo começa em uma mesa de bar”, o material deve ser levado muito mais a sério e deve ser expandido para as mesas de estudo, universidades, debates, culminando no set de filmagem. Não há como não se questionar sobre o seu papel como cineasta e com certeza esta leitura vai me influenciar em meus próximos trabalhos.

Segundo o posfácio de Carlos Augusto Calil, o livro é a tese universitária de Bernardet que afirma: o cinema brasileiro é uma manifestação feita da classe média para a classe média, e não para o povo como pregavam os cinemanovistas. Ou seja, a culpa do cinema brasileiro não ser popular entre o público não se devia apenas aos problemas de distribuição. A linguagem não estava estabelecendo comunicação com seu principal alvo.

A ousadia dessa afirmação origina discussões até hoje e nos faz refletir sobre o Cinema da Retomada, sobre o quanto nos aproximamos e permanecemos distantes de uma linguagem que dialoga com público e crítica. Podemos analisar uma safra mais atual, como Cidade de Deus e Tropa de Elite e notar o quanto contribuíram para a elaboração de personagens dúbios e bem construídos, para um ritmo e linguagem que fez contato com o grande público. Mas uma analogia mais profunda é assunto para outro post.

O livro levanta também uma nova perspectiva sobre o cinema que retrata o sujeito da classe média, o homem que oscila, procurando a que se prender, em que acreditar e que escapa a duras penas da desilusão e do marasmo social. O artista (também pertencente a essa classe), fixou-se tanto em retratar o povo que se esqueceu de si e de seus maiores conflitos. Nos capítulos finais, somos incentivados a seguir esse tema de autoconhecimento através de exemplos de filmes precursores nessa abordagem: São Paulo S.A. (Luiz Sergio Person, 1965) e O Desafio (Paulo César Saraceni, 1965). Dessa forma, abre-se espaço para a liberdade de expressão, sem o estigma de fazer filmes apenas para conscientização popular. Quanto mais sincera for nossa busca por nós mesmos, mais verdadeiro nosso retrato na tela.

Brasil em tempo de cinema é uma bibliografia como poucas sobre a tradição cinematográfica do país. Leia disposto a enxergar o cinema brasileiro e a você mesmo de outra forma.


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