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Mais sobre o Kikito

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

E então, gente depois de anos, volto com um post muito bacana sobre a minha participação como júri estudantil representante da ULBRA no 38º Festival de Gramado.

Sobre os prêmios principais do festival, já era esperado que o filme Bróder de Jeferson De faturasse melhor filme e melhor direção. O longa realmente vai além do tão rotulado “filme favela” e, embora tenha me deparado com opiniões contrárias, é o que mais se comunica com o público, além de ser um filme com o perfil do festival.

Esse foi o único prêmio previsível, pois depois as surpresas tomaram conta. Melhor ator para Caio Blat em Bróder, prêmio especial do júri para O Último Romance de Balzac, melhor atriz para Simone Spoladore em Não se pode viver sem amor, melhor roteiro para Dani Patarra e Jorge Durán, por Não se pode viver sem amor e melhor fotografia para Luis Abramo, por Não se pode viver sem amor.

A seleção poderia ter uma variedade maior de filmes com sensibilidade e técnica. Houve uma enxurrada de documentários, alguns muito bons, outros nem tanto e as ficções estavam meio sem vida, o que explica a vitória de Bróder que, mesmo possuindo alguns probleminhas de roteiro, é um filme em que se sente a emoção depositada tanto durante a projeção quanto nos depoimentos emocionados do diretor Jeferson De. Incentivos como esse faltaram à ficção brasileira.

Embora a mostra competitiva de longa brasileiro tenha se encaminhado dessa maneira, a mostra de curtas e de longas-metragem estrangeiros estava difícil de julgar devido à grande quantidade de filmes de qualidade.

O curta vencedor de melhor filme, Carreto de Cláudio Marques e Marilia Hughes foi um grande merecedor, embora a animação vencedora do prêmio especial do júri Os Anjos do Meio da Praça tenha me tragado para dentro com uma força dificilmente vista neste festival.

O longa estrangeiro vencedor de melhor filme, Mi Vida Con Carlos, mostrou uma grande sensibilidade relatando o resgate das memórias do falecido pai de Germán Berger. Entretanto, continuo achando que o prêmio de melhor roteiro para La Vieja de Atrás de Pablo Meza não fez jus à beleza deste filme.

A Mostra Panorâmica, aberta ao público e exibida na parte da tarde durante o festival, foi julgada exclusivamente pelos integrantes do júri-estudantil. Filmes inteligentes e de muito conteúdo (alguns até melhores que os da mostra competitiva) foram vistos por nós. Dou grande destaque para Os Inquilinos de Sérgio Bianchi, filme forte com um enredo inteligente e personagens bem construídos, que trata sobre a vida de um pai de família tentando protegê-la dos males presentes no subúrbio.

Nossa escolha de Melhor Filme da Mostra Panorâmica foi Terra Deu, Terra Come de Rodrigo Siqueira. Um documentário muito bem construído sobre a vida de antigos cidadãos do sertão mineiro, misturando suas culturas locais, sonhos e fantasias à realidade. O filme apresenta a forma com que a celebração fúnebre de João Batista – falecido com 120 anos – resgata as memórias culturais de um povo com raízes africanas.

Minha experiência como integrante do júri-estudantil foi ótima e agradeço muito pela oportunidade de aprender e  conhecer as novas tendências do cinema brasileiro. Mas deixo um recado para a nova geração de cineastas: não se deixem impressionar com algo que, na verdade, não os impressiona. Festivais são concursos de filmes e não de tentativas de parecer inteligente. A melhor forma de ser notado é ser sincero consigo e buscar a ligação que está na essência dessa profissão: a paixão legítima  pela sétima arte.

Uma foto para registrar o momento:


Laranja Mecânica

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

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Inglaterra (Hawk, Polaris, Warner Bros.) 137 min. P&B/Cor
Idioma: Inglês
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, baseado no livro de Anthony Burgess
Fotografia: John Alcott
Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, John  Clive, Adrienne Corri, Carls Duering, Paul Farell, Clive Francis, Michael Gover, Miriam Karlin, James Marcus, Aubrey Morris, Godfrey Quigley, Sheila Raynor.

Após quase um século sem  posts, retorno com um sobre este clássico controverso e polêmico que ainda não tinha visto até esta semana.

Laranja Mecânica é digamos, uma ficção científica, por se passar em um futuro indeterminado muito próximo a nossa realidade atual.

O enredo conta a história de um grupo de rapazes que adotam como prazeres e passa-tempo a violência, estupro, invasão de residências, “leite” e no caso de Alex, o protagonista, Beethoven.

Em meio a esse ambiente bem “horrorshow”, Alex é capturado pela polícia e, após dois anos na prisão, é submetido a uma técnica experimental de cura de delinquentes que não passa de uma lavagem cerebral que elimina qualquer traço de vontade própria e autodefesa. O método Ludovico, consiste em injetar drogas que causam dor física no paciente e colocá-lo para assistir vídeos de violência extrema (como a praticada pelos droogs), para que assim ele relacione o ato violento ao desconforto e reprima qualquer instinto opressivo por condicionamento.

Não é nada complexo fazer um paralelo com nossa presente sociedade, na verdade esse é o verdadeiro propósito do filme, não divulgar a violência como a censura acaba pregando. Isso é o que determina se o espectador fará uma interpretação coerente com o longa ou se sairá por aí praticando a chamada “ultra-violência” do filme.

Alex seria como um jovem perturbado de nossos tempos, que finge estar com alguma dor ou doença para não ir à

Alex e os Droogs na Leitaria, que equivale aos bares e outros distribuidores de drogas de hoje em dia.

Alex e os Droogs na Leitaria, que equivale aos bares e outros distribuidores de drogas de hoje em dia.

escola e em que os pais acreditam para não se incomodarem em assumir uma postura paterna. O leite são as drogas que se tornam o combustível para a irresponsabilidade e violência, e os Droogs são sua fiel gangue de capangas subordinados que só buscam um líder para seguir e dar suporte às suas necessidades.

Existe também a figura do assistente social, que apenas se preocupa que o número de jovens recuperados por ele seja maior do que o de delinquentes que acabam na cadeia, estes últimos que apenas enegrecem sua ficha profissional.

Outras figuras desprezíveis que representam nossas autoridades também estão presentes, como o Ministro, porta-voz do governo, que no primeiro momento apóia e divulga o método Ludovico apenas para adquirir votos e dar uma trégua à superlotação das penitenciárias, mostrando que o ser humano por trás do eleitor, na verdade não é sua prioridade.

A visão dos representantes religiosos também é turva, pois, mesmo percebendo a desumanidade cometida, não interferem com maior atitude quando descobrem que o seu trabalho de tentar converter os desvirtuados está quase acabado.

O personagem Alex, em minha concepção, é desprezível em todo o longa-metragem. Mesmo como vítima, em nenhum momento sente-se pena dele, muito pelo contrário.

Em cenas como a invasão da mansão futurística de um escritor, onde os droogs o espancam e estupram sua mulher, o espectador choca-se e sente-se desconfortável, mas quando Alex é quem assiste a tais cenas em acessos ininterruptos de dor, quem se deleita e demonstra seu sadismo em relação a punição dos maus é o verdadeiro espectador.

Em certa altura da história, Alex descobre que seus ex-companheiros de gangue se tornaram policiais retratando o que de fato acontece, os antigos marginais acabam transformando-se em nossos oficiais de polícia apenas para cometer mais atrocidades em um meio mais influente.

Quando o método Ludovico é desmascarado para a sociedade após uma tentativa de suicídio de Alex, o governo, agora enfraquecido, tenta reverter o processo de condicionamento do ex-delinquente, para recuperar os votos. E o resultado é a volta de um velho vândalo ao seu hábitat natural.

Em termos técnicos, o filme é uma obra de arte. As composições coloridas de Kubrick, instigam estranhamente a confusão, apesar da simetria das mesmas. Por possuir poucos planos próximos e closes, as cenas conduzem ao nervosismo por não obedecerem a tendência do espectador de esperar a aproximação.

E em suma, o ambiente do filme é completamente desobediente, ao tratar de jovens que não se enquadram na sociedade, autoridades que não condizem com seus títulos e ao provocar o espectador, mostrando a violência e o sadismo que ele mesmo cultua em seu grupo social e dentro de si mesmo.

Persepolis

sexta-feira, 22 de maio de 2009

persepolis1Persepolis é um filme de 2007, dirigido por Vincent Parannaud e escrito por Marjane Satrapi, que conta sua autobiografia baseada na HQ de mesmo nome.

O que chama atenção na estética do filme é justamente a maneira simples e bela com que é feita a animação, quase toda em preto e branco, linhas bem traçadas e a forma quase infantil dos desenhos.
Muito diferente dos desenhos “ultra-tecnológicos”, em 3D que circulam pela mídia hoje em dia, Persepolis depõe essa ideia de que boa animação é cheia de efeitos e formas bem próximas da realidade.
A própria Marjane recusou recursos oferecidos para tornar o desenho mais real. E vendo o resultado, enxergamos o por que desta escolha.
Isto tornou-se a meta dos desenhistas atualmente, igualar uma animação à vida real. A magia de um desenho tem sido esquecida, pois, estamos tão fixados no que a tecnologia pode nos proporcionar que queremos construir universos idênticos ao nosso e esquecemos de ampliar nossa capacidade criativa que apenas as coisas simples podem oferecer. Por que criar algo que podemos ver todo dia se podemos fazer com que a nossa imaginação seja vista?
De fato, se a história fosse mostrada de uma forma mais convencional não seria tão interessante.

O filme narra a história de Marjane Satrapi, ainda menina, que mora no Irã e presencia fatos conturbados como a Revolução Islâmica, com a queda do regime do Shah que mantinha uma política ditatorial opressiva com infiltração dos costumes ocidentais impostos pelas nações capitalistas como EUA e Reino Unido. Isso gerou uma revolta que culminou na política teocrática ainda presente na região.

A animação ilustra bem a esperança da família de Marjane a respeito da nova república e a frustração quando viram como ia terminar a situação.
Acostumada com uma vida livre, Marjane começa a sentir-se presa com os novos hábitos; o véu, a proibição de festas, do álcool e o pudor excessivo.

A rebeldia de Marjane

A rebeldia de Marjane

Marjane, desde pequena lutou por seus ideais. Quando o tio é preso e morto ela se revolta e questiona o posicionamento das irmãs religiosas que lecionam na escola, alegando que no novo regime não há prisioneiros políticos.
Tanta rebeldia acaba lhe rendendo um passaporte para a Aústria, pois seus pais veem que a situação ficaria difícil demais para a garota suportar.

Lá a menina passa sua adolescência cercada pela cultura alternativa, mas quando se depara com o pensamento de falta de sentido na vida que seus amigos punks tanto pregam, se decepciona e sente-se deslocada.

Marjane e seu namorado canalha

Marjane e seu namorado canalha

A questão das paixões adolescentes de Marjane é mostrada de uma forma bem divertida. Com um “dedo podre” para homens ela vai de um primeiro amor por um homossexual a um namorado que a trai, o que lhe rende uma boa depressão e um longo período morando nas ruas.

Frágil e doente, ela retorna para Teerã, sua cidade natal, onde, mesmo com a repressão da sociedade, reencontra suas forças para lutar contra as injustiças e retomar sua vida.

Após um casamento que termina em divórcio, Marjane decide, com a ajuda dos pais, que deve ir para a França onde pode expor melhor sua criatividade e ideias.

Como muitos filmes baseados em histórias reais, o final fica meio “no ar”, mas não se pode julgar o filme inteiro apenas pelo fim, pois afinal, a história não terminou ainda.

Persepolis é muito cativante, com seus personagens carismáticos e enredo real e sensível, permeado por política, opressão, adolescência e uma longa busca por auto-conhecimento.


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