Tá aí um clássico que eu tenho vergonha de dizer que não tinha visto.
Digamos assim, é um filme de feeling. Quem tem uma visão mais abstrata, artística dos conflitos do mundo e do ser humano entende e se identifica, quem leva as coisas mais pro lado literal acha uma droga. É gente, tem que ter tutano pra captar a linguagem do filme.
É o tipo de filme que se pode tirar sempre um pouquinho mais em cada vez que se vê. Vi duas vezes e só entendi direitinho na segunda.
Isso acontece por que é uma história de duas faces: o que acontece no mundo real e o que acontece no imaginário do personagem Pinky.
O Pinky é um cara cheio de traumas que se refletem em toda sua vida adulta. Um prato cheio pra Psicologia.
Mas o histórico da vida dele não é assim fácil de perceber. A princípio o filme tem vários personagens diferentes: o cara vegetativo na frente da TV, um garotinho que perdeu o pai, o menino poeta que é ridicularizado na escola e.. bom acho que são esses. E esses casos não seguem uma sequencia cronológica, mas vão aparecendo misturados, mesclados uns com os outros, cada um dizendo respeito ao seu personagem. É isso que faz a surpresa de perceber que todos eles são um só, o pobre coitado do Pinky.
O filme é ótimo porque não se fixa em apenas um ponto, um tema, como o resto dos filmes costuma fazer. Ele trata de variados assuntos com capricho, sem deixar o nível cair em nenhum deles. Exemplos? Ora, muitos. O longa tem um cunho psicológico/emocional nunca saindo dessa linha, relatando dificuldades de relações interpessoais, superproteção, casamento, ausência paterna, tudo com o muito já citado feeling.
A parte política (que eu pensei que não fosse me interessar tanto) é uma beleza também. Tipo, fala muito da Segunda Guerra onde o pai do Pinky morreu, com uma animação muito intrigante e triste, Goodbye Blue Sky que eu vou deixar postado aqui. É mostrado mais o lado da Inglaterra quando andava sendo bombardeada. Acho muito interessante a analogia das pessoas correndo como macacos, com máscaras que protegem de gás tóxico, sem saber pra onde vão ou por que estão se escondendo.
E quem não conhece Another Brick in the Wall? Pra mim antes era só um protesto contra o sistema educacional, muito bem feito por sinal, mas encaixado no conceito do filme, mostrando que o professor era um baita frustrado que tinha que literalmente “engolir caroço de azeitona” porque a mulher mandava, fica muito mais interessante.
Sem falar nas crises psicológicas relatadas, que cara, emocionam mesmo. É muito falado (tanto que é o assunto principal que traz o nome The Wall) o tema de se sentir ameaçado pelas pessoas, achar que somos pouco e facilmente magoáveis e a tentativa de se proteger disso construindo um “muro” – The Wall. Só que acontece que essa muralha de proteção, esse forte, acaba se tornando uma prisão e causando uma alienação irreversível no personagem. Nisso eu me identifiquei por uma época que eu tentei não ter tantos sentimentos, pra não me estressar e me magoar e agradeço por ter saído dessa.
A loucura chega a tal ponto que o Pinky começa a ter umas viagens (com o auxílio de umas droguinhas) de um universo paralelo dentro da cabeça dele em que ele se torna um ditador e depois é julgado e tem a sua “muralha” quebrada e todas as suas fraquezas expostas.
Bom, era só um comentário mas acabei contando todo o filme. Desculpe quem ainda não viu, mas não perca a vontade de ver porque vale a pena
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Fica aí o vídeo de Goodbye Blue Sky só pra dar um gostinho.